11.01.09

Mangaba

Mangaba---flor-e-fruto     Árvore copada que oferece frutos de cheiro adocicado, macio e leitoso, a Mangaba (Hancornia speciosa) é hoje uma das fontes de renda que auxiliam o sertanejo a viver do extrativismo sustentável em suas terras. Os frutos são processados e transformados em polpas para preparo de sucos, sorvetes, compotas, geléias, licores, vinagres e um delicioso bombom. Não é raro ver os alunos de escolas públicas no norte de Minas receberem na merenda escolar o suco preparado com sua polpa rica em proteínas e vitamina C. Seu nome tem origem na língua tupi e significa “visgo” ou “coisa boa de comer”, o que é a absolutamente verdadeiro. Desde os antigos, suas propriedades medicinais são utilizadas para curar uma infinidade de mazelas, além de fazer parte do universo lúdico das crianças do sertão, que dela extraem seu leite e com muita criatividade o utilizam na elaboração de singelos brinquedos.

     Outro dia ouvi de Zé Bugio, um geraizeiro já de idade, que quando garoto ele morava numa área de muita mangaba e ele contou que “se alembrava dumas boas malinagens feita com ela”. A criançada ficava de “butuca”, esperando ansiosamente pela morte de um capado pra retirarem dele a bexiga ainda fresca. A partir daí dava-se início a uma espécie de ritual, onde os mais velhos e experientes do grupo de moleques ditavam os procedimentos. Com um talo de mamona, sopravam dentro daquele saco vazio, que depois de inflada, era levada para secar por uns três dias diretamente no sol. Depois da bexiga já bem seca, o leite de mangaba era colhido e uma fina camada esparramada sobre uma tábua bem lisinha. Deixavam secar por alguns minutos e em seguida “enrolavam” lentamente a bexiga nessa película de borracha ainda mole, sempre num mesmo sentido, procurando aos poucos envolve-la completamente, tomando o cuidado de selar a saída do ureter para que ela não se esvaziasse.
     Pronto. A partir daí era só alegria, pois eles tinham em mãos uma bola extremamente puladeira e a meninada ensandecida corria atrás do novo divertimento num campo empoeirado a beira do carrasco. Depois de furada ou esvaziada, a molecada ficava a espera de outra bexiga para repetir toda a aventura de construir seu próprio brinquedo. Este leite de coloração esbranquiçada é retirado diretamente no tronco fazendo um corte com facão. Desse talho brota uma grande quantidade de látex e que se for colhido puro, rapidamente se transforma em outro brinquedo: uma bola de borracha macia que quica desordenadamente.
     Mas o aproveitamento da Mangaba não é só para divertimento e de acordo com nosso conhecido raizeiro Chico da Mata, “carece de butá só uma pitadica de sal que o leita num táia mais”, ou seja, não ela não se solidifica. Quando dissolvido num pouco de água tem inúmeras aplicações medicinais. Uma de suas boas indicações é no tratamento das doenças pulmonares, pois ajuda o doente na eliminação do muco agarrado ao peito. Para isso o leite é misturado à água em proporções iguais e passado por uma fervura rápida, com o doente tomando o preparado ainda quente. A melhora acontece no máximo em três dias e já ouvi um relato dando conta de que o doente invariavelmente “provoca” para eliminar a catarreira já solta. As folhas tradicionalmente são utilizadas no combate as cólicas menstruais, na obesidade, diabetes, eliminação de verrugas e na pressão alta, substituindo o Captopril.
     Ele ainda me disse que usa suas raízes “prá quem tá com quentura interna. Aquilo dá um chá gostoso, fresco e a fruta apaga aquela calorama que arriba das entranhas. Tamém dei de usar a casca prás mermas coisas e se dei muito, é bão demais”. Visivelmente emocionado, Chico me contou uma outra história que o deixou de olhos merejados. Com um monte de filhos para criar naqueles tempos de parcos recursos, sua falecida mãe fazia o impossível para aplacar a fome da meninada. “Mãeínha saia bem cedim pro cerrado carregando uma cuia com um tiquim dágua até se dá com uma Mangabeira. Batia o facão, coia o letche e vortava pra casa dizendo que era leite de vaca. Butava aquilo no fogo, juntava farinha, rapadura e daí era uma festa! Sodade dela...”
 Uma revelação me foi feita recentemente para acabar com as manchas escuras que surgem no rosto, principalmente das mulheres após a gravidez ou uso de anticoncepcionais. O procedimento é modesto: colha um pouco do leite da mangabeira e misture um pouquito de água. Espalhe com um algodão essa mistura sobre as manchas todas as noites antes de dormir e pela manhã lave o rosto com água fria. Em pouco tempo as manchas vão desaparecendo. Experimente.

Agenda.

Curso Vivencial de Preparação de Incensos
Dias 26, 27 e 28 de setembro de 2014

Acesso





Depois de cadastrar-se, você vai receber um email de confirmação. Verifique sua caixa de entrada.

Entrar
Register

Histórias do sertão

Site desenvolvido por Diogo Magalhães usando o Joomla!

Visite no Facebook