11.05.10

Quebrante

_Quebrante     Assim que cheguei à casa de Maria do Céu, deu-se o habitual cerco de atenções e mimos dispensados a todos que passam por ali. Impossível não experimentar o café adoçado com rapadura e roer uma variedade de quitandas preparadas no forno de lenha. Seus biscoitos de nata, os amanteigados de amendoim e os tradicionais biscoitos de goma tirada da mandioca do quintal, sempre acompanhados dum queijo mineiro são irresistíveis. Cacei logo um lugar na varanda da casa prá esticar as pernas por cima dum banco tosco de casqueiro de peroba rosa, enquanto a vista alcançava um sem fim de serras e montanhas iluminadas pela luz dourada daquela tarde de outono.
    

Com seu indefectível vestido de xita multicolorida, Maria do Céu se achegou e deu início a seu proseio macio de causos acontecidos. Naturalmente a conversa caminha pros benzimentos, terreno seguro de atuação da anfitriã. Minha curiosidade é muita e acabei por identificar uma das personagens, Dona Mundica, moradora do Condado de Baixo. De longe vem a lembrança de acontecido quando ainda em lombo de animal se seguia até Varjão buscando algum recurso mais diferençado do cotidiano da comunidade prá enriquecer a dispensa.
     No pigogo da serra do Ouro, Maria topou com ela carregando um pacote de panos bem alvinho nos braços. Percebendo aflição e destempero nos modos da mulher, suntou: “Ô cumadre, mas que trouxinha de pano é essa que ocês tão levando?”. Quase desfaleceu quando percebeu que no meio dos panos tinha uma menininha virando um mês de nascida.
      “A menina já tava sinfética em tempo de morrer, mas já tava mermo espichando! Aquilo, a mãe oiava com os zóios esgaziado de tanto chorá. Bastô mirá prá vê que era quebrante. Naquela hora me desceu uma força e uma certeza que, só Deus! Só mermo a fé nesses casos, né mermo meu fio? Rezei nela ali mermo, no meio do gerias e a bichinha se melhorou na hora.”
      Espantado com o desfecho da história, ainda perguntei incrédulo; “Melhorou na hora?” Maria confirmou taxativamente e detalhou que a menina era muito miudinha e “com o benzimento findou o quebrante. Dispois de anos acabou morrendo com sofrimento derivado de chiado nos peito. Morreu porque Deus quis, mas do quebrante ficou livre.”
      Pedi explicações mais detalhadas do acontecido, deixando claro minha absoluta ignorância sobre tema tão despalpitado. Experimentando devagar as palavras, do Céu responde que “tem de difençá, a mode difini se é quebrante ou mau oiado. Se é numa menina mulher ou num menino homem, antão é quebrante. Mas se dá de despontá ni gente grande é mau oiado”, explica de maneira incontestável essa mazela muito comum no cotidiano sertanejo, mas distante da realidade cosmopolita. Não resisti e roguei por sua generosidade no sentido de me contar com quem ela havia aprendido reza tão poderosa. “Pois foi com meu pai, home bão que só. Se ocê quisé, te conto as palavras, coisa simpris, mas com fé se arruma tudo”. Desnecessário dizer minha aflição em ouvir sua oração, que dizia o seguinte:


Se dois olhos maus te viram, três bons te curam
De quebrante e mau-olhado
Que o Pai, o filho e o Divino Espírito Santo,
Te livre, Amém


     Maria do Céu completa que faz uma cruz com as folhas de arruda, vassourinha doce ou guiné e repete os dizeres por três vezes passando os ramos pelo corpo do doente. Esclarece ainda que “é bão rezá um Pai Nosso oferecendo pro seu santo de devoção. É simpris, mas tem de tê uma fé viva prá alivrá o povo do sofrimento”.

Acesso





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Histórias do sertão

Diarréia no Sertão
15/06/2013 | Marcos Guião
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Acordei num domingo bem cedo, e me deparei com uma montanha de vasilhas na pia da cozinha. Enquanto o movimento da casa ainda tava mortiço, decidi encarar o serviço e aos poucos fui lavando, aproveitando prá colocar as idéias no lugar. De repente, senti uma dolorida ferroada nas costas, mas com as mãos cheias de sabão, o máximo que consegui fazer, foi tentar dar uma coçada no local com o cotovelo, sem muito sucesso. Num dilatou muito e comecei a me sentir mal, com calafrios, febre e uma moleza incontrolável. De cama por um tempo, fiquei matutando o que estaria me provocando tamanho desconforto e não cheguei a uma resposta convincente. Somente daí alguns dias concluí que possivelmente uma aranha havia me picado, bicho com uma peçonha medonha. Isso me custou um bocado de pajelanças, e demorei até me safar razoavelmente bem dessa história. Mas ficou uma “rema”, e durante os dois meses seguintes, de repentemente me dava uma falta de energia imensa e eu mal conseguia ficar de pé. Aquilo vinha s [ ... ]


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