05.11.10

Capa Rosa

Capa-rosa_thumbDesde os tempos dos antigos existem lendas difundidas pelo sertão, que acabam se transformando em verdades difíceis de serem mudadas. Certa vez, uma dessas lendas atravessou meu caminho durante coleta de plantas realizada com o amigo e raizeiro Chico da Mata, num dia claro e fresco no começo da primavera. Se demos de tope nas opiniões e foi demorado ajeitar um acordo. O caso se deu assim.

Assim que chegamos à chapada, descemos das mulas e depois de afrouxar os arreios, elas ficaram na larga do cabresto em pastação de capim no broto dessa época. Com facão na cinta e um saco na mão, entramos num cerrado tapado de rebentos averdados, na caça de remédios variados.

Num andamos nem dez passos e vi a Caparosa (Guapira noxia) com folhagem bem novinha. Fui assim parando e me alembrando que a conhecei a muitos anos atrás, durante um dia de campo na região de Caeté. Um morador local havia me dado conta de seus muitos préstimos nos problemas renais, mas com o tempo vim a descobrir sua excelente atividade antiinflamatória em geral, principalmente nos casos de artrite, dores na coluna e articulações.

Apontei a Caparosa e já fui coletando suas folhas para colocar no saco, quando Chico estacou e com cara de espantado me perguntou incrédulo: “Uai! Nunca tive conhecimento da serventia desse pau prá arguma coisa... Isso presta?” Então lhe contei como a conheci e minhas boas experiências na sua aplicação. Ele se encostou numa árvore e puxando do facão, deu de fazer ponta num pedaçico de pau, sinal de matutagem dele sobre minhas informações. Depois de um bom tempo me olhando fazer a coleta, falou pausadamente:

“Ingraçado. Desde deu minino miúdo, mas já com força nas perna pra acompanhar meu pai no gerias, ele me mostrava este pau e dizia prá ter cuidado quando topasse com ele no mato, pois quando o vivente passa debaixo dele sem enxergá-lo primeiro, fica variado e a perdição dos caminho é certeira. O cabra fica vagando, caçando rumo de casa e num acha. Sempre tive ele em conta de coisa ruim, assim maldoso com os distraídos. Agora ocê vem com essa coisa dele remédio...Nóis aqui conhece ele de pau lepra e tamém de pau sapo”

Voltei a enfatizar sua grande utilidade na farmácia sertaneja, tentando mostrar a ele que de repente uma informação nova pode abrir outro campo de conhecimento e ser útil até mesmo pra nossas próprias mazelas. Ele ouviu calado e assim ficou até a gente dar termo na caminhada de coleta e montar nas mulas em retorno. De repente ele estacou, se voltou e me disse:

“Pois antão eu vou exprementá essa caparosa perdideira prá vê se acho caminho de cura na minhas dô de costela que sempre dá sinal pontiado na virada de lua. Será?” Mais uma vez exaltei os muitos sucessos que vinha colhendo com o uso de suas folhas. Ufh! Aquilo já tava me deixando cismado. Será que aquela planta representava algum perigo, afinal? Pois o tempo passou e alguns meses depois resolvi perguntar sobre as dores nas costelas do amigo. Ele me olhou estampando um largo sorriso na sua cara de lua e disse feliz: Cabô! Num tem nem mais a cor! Fiquei livre daquele encosto ruim. Viva a caparosa perdideira!”. E foi assim que também soltei um viva pela vitória do Chico. Inté!

Agenda.

Curso Vivencial de Preparação de Incensos
Dias 26, 27 e 28 de setembro de 2014

Acesso





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