18.07.11

A Mãe do Corpo

Enxota-pequenaA prosa que saia solta no meio daquele tantão de mulheres reunidas em torno de Maria do Céu, me deixava hipnotizado. Ela conduzia a conversa dentro de seu indefectível vestido de chita multicolorida, relembrando de tempos não tão antigos, quando a mulher em gestação, fazia seu parto lá no meio do mundo acompanhada por outra igual. Me espantei ao tomar conhecimento que as parteiras daqueles tempos se referiam ao útero feminino como a “mãe do corpo”. Lindo isso, né mesmo?

Maria do Céu, recostada numa velha almofada no canto do avarandado, mirava um tempo que só existia na sua alma, mas que transparecia através do brilho intenso que brotava de seu olhar negro umedecido pelas lembranças.

__Nos antigos, a mulher de resguardo não podia suspender o braço por riba da cabeça porque a “mãe do corpo” tava solta. Num podia nem arribar um pau de lenha, descer ou subir não podia. Não podia molhar a cabeça enquanto durasse o resguardo. Só comia sopa de frango, angu, pirão, tutu de feijão, num podia nem comer comida dormida. Aquilo era um luxo.

__No mais das vez o prato servido era de pirão, com cebola branca, sal, gordura de porco castrado, pois num podia ser de porca e nem de uiúdo. Sabe que isso não? É porco sem castrar, moço! Esclareceu ela sem interromper seu relato. Tudo isso durava trinta dias se fosse menina muié, mas no causo de menino homem, quarenta dias. Mas tamém num fartava uma talagada da garrafada de artemijo, losma e salsa curtidas na cachaça.

Ouvindo isso, D. Mudesta, comadre de Maria que tava do lado acompanhando o proseio, levantou a voz e completou a recomendação:

__Podia tamém ponhá o mentrasto, o mastruz e a bassorinha. Eu gostava muita é da garrafada, que me deixava tontinha. Tamém num podia comer crumatá, viado, nem peixe pelado sem escamas, e principalmente repolho, que deixa a mulher fedendo que nem carniça. Vixe! As outras companheiras deram de se rir lembrando-se destes tempos.

Maria do Céu não se conteve e comentou:

__Nessa era que nós tamos hoje, se sair até cobra muqueada de lá da conzinha do hospital, a mulher parida é obrigada a comer. No meu primeiro filho, depois de 3 dias do parto, eu barri a casa, e senti uma dor forte nas cadeiras, descendo pelas pernas. Minha mãe chegou e imediatamente deu sentido que eu tava amarelada, esquisita.

__Que malinagem vc fez?

Respondi que tinha barrido a casa com ramo...

__Foi isso que te arruinou, minha filha! Mulher de resguardo não pode socar pilão, abaixar, barer casa e nem pular cerca. Tem que ficar quieta!

Ela caminhou até uma moita logo em frente e buscou um maço de enxota. Preparou uma água bem esperta, colocando-a juntada com um tanto de sal torrado e me levou pro quarto prá banhar minhas pernas e as cadeiras dentro da bacia.

__Minha filha, preste atenção, pois é preciso 30 dias prá fechar o corpo. Nem volto hoje prá casa, pois vou ficar aqui tomando de conta docê.

Hoje isso pode parecer piada, poesia ou até história desgastada, mas era assim que a mulher cuidava da “mãe do corpo” nos antigos. Inté a próxima lua!

Acesso





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