Histórias do sertão

Vaca-brava-Acordei num domingo bem cedo, e me deparei com uma montanha de vasilhas na pia da cozinha. Enquanto o movimento da casa ainda tava mortiço, decidi encarar o serviço e aos poucos fui lavando, aproveitando prá colocar as idéias no lugar. De repente, senti uma dolorida ferroada nas costas, mas com as mãos cheias de sabão, o máximo que consegui fazer, foi tentar dar uma coçada no local com o cotovelo, sem muito sucesso. Num dilatou muito e comecei a me sentir mal, com calafrios, febre e uma moleza incontrolável. De cama por um tempo, fiquei matutando o que estaria me provocando tamanho desconforto e não cheguei a uma resposta convincente.

Somente daí alguns dias concluí que possivelmente uma aranha havia me picado, bicho com uma peçonha medonha. Isso me custou um bocado de pajelanças, e demorei até me safar razoavelmente bem dessa história. Mas ficou uma “rema”, e durante os dois meses seguintes, de repentemente me dava uma falta de energia imensa e eu mal conseguia ficar de pé. Aquilo vinha sem avisar e eu me arruinava prá valer. E foi nessa situação que segui viagem para a região de Olhos Dágua, mais especificamente na comunidade de Macaúbas Curral, onde estava programado o desenvolvimento de um trabalho com as plantas medicinais durante uma semana. 

Lá tive uma recepção muito amável e uma família me alojou num dos quartos da sede de uma fazenda que distava cerca de 200 metros de uma antiga edificação, onde nos antigamente havia funcionado a escola que os primeiros moradores da região haviam freqüentado. Com a construção de novas escolas e a criação dessa mudernagem de ônibus buscar aluno na roça para estudar na cidade, ela acabou abandonada e atualmente funcionava como sede da Associação Comunitária. 

Este foi o local que realizamos nossos trabalhos e no segundo dia, de repentemente a tal fraqueza surgiu com seu ímpeto habitual, me deixando praticamente sem forças. E aí me alembrei que a tempos eu carregava comigo um preparado de cloreto de magnésio, mas ainda não havia me decidido a tomar tão afamada porção. Quem sabe ele não poderia me dar uma mão nessa fadiga repentina? Sem vacilar um segundo sequer, meti a cara num copo quase cheio, lembrando-me vagamente de ter lido alguma coisa sobre a dosagem deste preparado num texto perdido dentro do computador.  Em seguida segui em direção a sala de aula depois de atravessar um largo pasto cheio de vacas. Num demorou nadica e minhas entranhas deram de barulhar e uma intensa turbulência se instalou, com a conseqüente emergência em utilizar um banheiro.

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                CruzDia desses ouvi uma história deverasmente curiosa que acontecia com freqüência nos antigamentes da região de Bom Despacho. Quem me contou foi Zé Malaquias, homem com seus mais de 70 anos, de grandes olhos esverdeados enfeitando seu rosto marcado pelas experiências da vida. Naqueles tempos ele era morador da comunidade do Engenho distante cerca de 18 km da sede do município. De acordo com ele, quando morria alguém por lá era um “Deus nos acuda”.

Em geral o defunto era devidamente preparado, chorado e velado pelos amigos e familiares ainda na comunidade, para depois então ter seu caixão fechado e colocado por riba de uma espécie de padiola, que

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Tira_ChapuNos tempos que já vão se apagando da memória do povo e da pova, em sempre dava de descer uma aguada pesada do céu desse meu Deus. Antão, por aqui teve uma enchente nessas grotas, que foi um pesadelo. Todo esse mundo de terra se alagou, com gente ilhada, outro tanto perdido no meio de um verdadeiro dilúvio sertanejo. Foram tempos de fatalidades muitas, infortúnios sem fim e tormentos históricos assolando as famiagens dessas bandas.

Essa enxurrada deu nascença ao nome da comunidade de Tira Chapéu, num sabe. Tudo começou quando um morador dessas localidades aqui de perto, Munquim de Zé Galega, que sempre trazia num zelo danado um chapelão branco de aba larga por riba da cabeça. Ele envinha com a feira do mês comprada no comércio da cidade, mas em antes de pegar a estrada de retorno, deu de passar no buteco de Mané Galinha e se entornou.

Dispois de já bem bambo, arribou as compras na cacunda e se foi bêbado, tropeçando aqui e acolá, se escorando nas farpa de arame. Desse jeito se achegou na beira do Córrego da Maiada e topou com ele lambendo as beiras, pois a chuva tinha sido muita. Sem valença dos sentidos e com juízo despedaçado, tocou prá dentro do córrego entornando e a aguada tangeu ele com tudo. Ele arriou ribeirão abaixo e deu de topar com gaiada e toco de tudo quanto é qualidade, mas de sorte se enganchou numa ramada e deu de sair prá fora.

Mas as compras sumiram no mundo e o chapéu de aba larga tamém se foi arrastado pelas águas. Antonces, a comunidade dele ficou com esse nome derivado deste fato acontecido, quando esse tal de Munquim de Zé Galega, num tirou o chapéu prá atrevessar aquele mundão de água e daí quase se afogou.

Causo dos mais isquisito esse, né mermo? Ouvi por aí, no sertão de meu Deus...

Artesanato de Barro do Alto do Vale do Jequitinhonha

Artesanato---bonecaAqui nesse lugar há muito tempo havia um buritizal, sabe aquela palmeira? Pois antão, é ela mesmo. Os povo que moravam nas grotas resolveu fazer um campo de futebol na unha, de mutirão aqui em cima da chapada. Todo mundo se juntou tirando os tocos de pau, tapando os buraco, fazendo as marcação e levantando os gol. Tudo pra criar um lugar de brincadeira e diversão no final de semana, quando juntava o time dos homens daqui com as muié e os meninos na torcida. Era coisa feroz, com mijada no goleiro dos visitantes e muito barulho infernal pra atrapaiá. Era o único lugar na região onde juntava gente pra fazer batizado, missa e a domingada quando tinha mesada de leilão. Sabe o que é? Sabe não? Antão explico.
Juntava o povo e cada um trazia um trem de casa. Era prato de feijão com ovo, frango assado, milho, bolo de capote. Num sabe o que é tamém não? É bolo de fubá enrolado da folha de bananeira, coisa aqui do sertão, muito gostosa. E tinha tamém o galho de bolo, uma maravilha que encantava as menina-moça. Era assim: alguém tirava um garrancho duma árvore qualquer do cerrado, daquelas bem ramiada e daí ela passava a ser o “gaio de fulô”. Era uma função amarrar um tantão de fita colorida, montando flozinha com bala bem misturada, fazendo aquela graça enfeitada. Aquilo era concorrido no meio dos rapaz solteiro, que dava um jeito de arrematar para dar de presente pra uma moça escolhida sua. O leiloeiro quando gritava o nome da dama que ganhava um trem desses, num vortava prá casa sem o namorado, era mais que uma declaração de amor, coisa muito disputada. Em antes do final do dia era certeiro que os dois tavam de mão dada. Fazendo-o-Boneco-de-barroO forró naquele tempo era em volta da radiola de pilha vermelha lá na venda do Antonio Honorato, bem ali na praça. Aquilo o povo caia a folha, se acabando de tanto dançar.
Meu nome? Ah, meu nome é Zezinha, derivado de Maria José Gomes da Silva. Minha mãe é que deu de me chamar assim e ficou. Sou casada com o Ulisses e tenho duas meninas já moça. A herança de vasilheira veio de minha avó paterna, Dona Orlinda de Chico Tatú, veterana do barro que já morreu há muito tempo. Os viajantes passavam com as tropa de burro indo prá essas boca de mata de Água Boa, Malacacheta e antão trocavam as vasilhas por café em coco, arroz na palha, sal...Mas ela tamém recebia uns trocado, né? As meninas dela tudo aprendeu a fazer artesanato, inté meu pai fazia alguma coisica. Agora, minha mãe, Maria de Mané, tamém já tinha tino prá isso, porque uma tia dela fazia direto e eu me alembro deu ainda menina já ajudando elas na lida de fazeção de vasilha. Hoje o povo chama isso de artesanato, mas nóis fala é “vasilha”.
O ofício de fazer vasilha deu início com as mais velhas, Dona Josina, Dona Rosa,

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O Lobisomem da Cabeceira 

Essa história se deu há muito tempo atrás lá pros lados das Cabeceiras, comunidade de pouca gente moradora num tiquim de casasLua-Cheia esparramadas a beira de uma barroca. Por ali vivia uma mulher com seu marido e o filho miúdo, uma graça divina que encarnou na terra para encantar a existência do casal. Mas a vida tem seus caprichos e o marido era turrento, tosco mesmo.

Numa noite de sexta-feira ornada pela lua cheia, eles seguiam pela estrada em direção a casa do pai da mulher e o marido deu de entrar pelo cerrado, buscando atalho na frescura da noite. Autoritário, mandou a mulher seguir pela estrada, dizendo que logo a alcançaria, mas o ardil era outro muito mais pior. Assim que divisou o contorno de uma lapa existente por ali, tirou as roupas às avessas e a colocou por riba dum formigueiro. Num bastasse, deu de uivar, rolando por riba da formigada, e em pouco tempo acabou-se virando lobisomem.

Enquanto isso, a mulher que caminhava pela estrada foi dando atenção a uivação desmesurada e o pavor lhe foi tomando conta dos sentidos. No coração pressentiu que o filhinho corria risco de vida, e rapidamente embrulhou com capricho o pequeno num xale vermelho que trazia consigo e jogou o pacotinho no último galho dum pé de Pau-santo, onde ele ficou engarranchado.

De pronto o bicho apareceu esturrando, e naquela agonia deu de pular tentando arrastar o menino, sem sucesso. A mulher passou a mão numa acha de aroeira e ficou agachada por detrás de uma moita de angiquinho, a mode se proteger. O Lobisomem por fim desistiu, mas de resto ainda deu uma bocada longe no barrado do xale e os fios avermelhados do tecido ficaram presos entre seus dentes. Amuado, o bicho acabou voltando para o mato, e lá transfigurou-se novamente no marido, que num tardou a voltar para a estrada em busca da esposa.

Lá chegando, ela lhe contou a aventura que passara e ele ficou se rindo na tentativa de desprestigiar o acontecido. Mas seus dentes ainda traziam os restos de fiapos do xale que embrulhavam a criança e a mulher deu reparo naquilo. Seu coração gelou de medo com a certeza de que ele era o lobisomem e isso bastou para ela dar ponto de retorno prá casa.

Bastou chegar em casa e foi-se logo aninhando na cama com o filho, buscando lhe dar proteção. O bicho, agora homem, cansado por demais, imediatamente se deitou e dormiu. Ela saiu devagarinho da cama depois de ouvir ele ressonando, levando consigo o filho e um machado até a beira do riacho que passava mais abaixo. Depois de afiar o machado, voltou com cautela até sua casa empunhando a ferramenta pesada. Lentamente entrou no quarto e vendo o baita estirado na cama, desceu o machado para ferir de morte o infeliz, fazendo desaparecer do sertão aquela lenda maldita.

Essa á mais uma das muitas histórias sobre Lobisomem contadas a beira do fogo nas noites enluaradas dos gerais.

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Agenda.

Curso Vivencial de Preparação de Incensos
Dias 26, 27 e 28 de setembro de 2014

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